Dentre as diversas escolas de investimentos, a análise fundamentalista se caracteriza por ser uma das mais coerentes e sustentáveis no longo prazo. Assim, essa estratégia pode ser aplicada para analisar empresas na bolsa de valores nacional ou do exterior.
Devido à sua grande relevância no mercado e por ser um dos modelos de estudos mais utilizados por investidores simpatizantes do Value Investing, o conceito básico de uma análise fundamentalista se faz de bastante importância para aqueles que pretendem investir com o foco voltado para o longo prazo.
O precursor dessa técnica foi Benjamin Graham. Ele defendia que o preço de uma ação deve refletir a expectativa de lucros futuros, tendo em vista seu fluxo de caixa em determinado momento.
Ou seja, ele buscava indicadores do sucesso futuro para identificar empresas que possuem um potencial de crescimento e valorização.
Um dos seus alunos, e uma da maiores figuras adeptas do investimento em ações por meio do uso dessa análise, é o multibilionário e empresário americano Warren Buffett. Ele é conhecido por utilizar a estratégia de buy and hold.
Ou seja, ele compra ações de empresas que passam por alguma crise ou estão subvalorizadas e aguarda períodos de médio e longo prazo com expectativa de valorização do ativo em carteira.
Para identificar essas oportunidades, ele e outros investidores milionários utilizam a análise fundamentalista.
Os principais dados empresariais podem ser vistos nos seguintes instrumentos.
Balanço Patrimonial
O balanço patrimonial é publicado trimestralmente ou anualmente e quem tem conhecimento para avaliá-lo enxerga tais dados como uma verdadeira fotografia da empresa. No balanço são avaliados o ativo, passivo e patrimônio líquido (PL).
O ativo de uma empresa está relacionado aos bens (equipamentos, terrenos, dinheiro, estoque). Já o passivo se refere ao dinheiro que deve sair da empresa seja por meio de contas a pagar, impostos, taxas, financiamentos, salários.
Por fim, o patrimônio líquido é a quantidade de capital que a empresa tem acumulada, podendo ser as ações, capital que os proprietários injetaram na empresa e lucro reinvestido.
Resumindo, a situação da empresa em um dado momento é evidenciada pela equação:
ATIVO – PASSIVO = PATRIMÔNIO LÍQUIDO
Demonstrativo de Resultado do Exercício – DRE
Basicamente o DRE mostra ao final do exercício, dentro de um ano, se a empresa teve lucro ou prejuízo. Ou seja, receita – despesa = lucro
Demonstrativo de fluxo de caixa – DFC
Essa análise é muito importante, pois revela o dinheiro em caixa. E ao analisar entre um exercício e outro, é possível compreender como a o dinheiro está entrando e saindo da empresa.
Índices e Múltiplos
Avaliação por múltiplos é um dos dos critérios mais importantes e utilizados pelos analistas na tomada de decisão.
Por meio de alguns indicadores, é possível encontrar empresas subavaliadas, e assim ter a oportunidade de comprar ações baratas.
A avaliação também reflete a percepção do mercado para com o ativo analisado e não exige uma infinidade de dados para se chegar ao resultado.
Índice Preço / Lucro:
É o múltiplo mais comum para se avaliar a atratividade do preço de uma ação relativamente ao preço de outras ações, no curto e no médio prazo, para empresas do mesmo segmento.
- P/L = preço da ação / lucro por ação projetada (LPA)
Se o índice é baixo, entende-se que a ação está barata. Logo há um bom potencial de compra.
Preço / Valor Patrimonial:
Indica quanto um acionista topa pagar pelo patrimônio líquido da companhia.
- P/VPA = preço da ação / valor patrimonial da ação
- VPA = patrimônio líquido / número total de ações
Quanto maior a relação P/VPA, mais cara ou menos atrativa está a ação
Dividend Yield:
Esse dado também é muito importante, pois mostra o dividendo pago por ação dividido pelo preço da ação. Ou seja, é o rendimento gerado para o detentor da ação pelo pagamento de dividendos.
Em geral, o DY é apresentado em percentuais pagos nos últimos 12 meses ou pela expectativa para os próximos 12 meses.
Se você deseja investir como Warren Buffett, você deve sempre buscar empresas que pagam bons dividendos. Assim, além da valorização da ação, você também receberá proventos.
ROE (Return On Equity):
Representa uma taxa de retorno do investimento dos acionistas na empresa. Este indicador é calculado utilizando o lucro líquido e dividindo-o pelo patrimônio líquido declarado no balanço patrimonial do período contábil imediatamente anterior ao atual.
É uma importante medida de desempenho da cia, mostrando se ela está, ao menos, gerando rentabilidade aos acionistas da empresa.
Você, como possível investidor, quer receber uma boa rentabilidade, não é mesmo?
Esse indicado também mede a capacidade de uma empresa de agregar valor a ela mesma utilizando recursos próprios, fazendo com que ela cresça usando somente aquilo que ela já tem. Este é um indicador de eficiência de gestão.
Valor Intrínseco
Um dos principais conceitos da análise fundamentalista é o valor intrínseco.
Trata-se de uma projeção do comportamento da ação com o objetivo de chegar no preço real da ação. Ou seja, quanto ela realmente deveria estar valendo no mercado. Esse conceito é também chamado de preço justo.
De uma forma bem simplista, isso significa que uma ação com preço justo de R$30,00 que está cotada a R$25,00 possui potencial de valorização.
Com isso, o investidor pode decidir pela compra do ativo, uma vez que irá manter o papel no longo prazo com a perspectiva de chegar no preço justo.
Vale lembrar que este é um exemplo simples e mesmo que o investidor chegue a um provável preço justo, não há garantia que o mesmo será atingido.
FCD – Fluxo de Caixa Descontado
O valor justo das ações que comentamos acima se define pelo valor presente de seus fluxos de caixa futuros.
O cálculo do valor intrínseco de um ativo é feito com base na avaliação dos números da empresa e suas projeções. Possui como principal instrumento o FCD (Fluxo de Caixa Descontado).
O FCD é uma projeção daquilo que a empresa poderá produzir no futuro, com os descontos do tempo que isto levará e dos riscos assumidos.O cálculo é feito da seguinte forma:
O valor presente dos fluxos projetados representa o “valor da empresa”.
Por exemplo, suponha que uma empresa tenha tais projeções ao longo de 4 anos:
- Ano 1: 50.000,00
- Ano 2: 56.000,00
- Ano 3: 65.000,00
- Ano 4: 72.000,00
Para atualizar os dados acima para o presente, atualizaremos com a taxa de juros. Vamos considerar que essa taxa é 10% ao ano.
- Ano 1: 50.000,00/(1,10) = 45.454,54
- Ano 2: 56.000,00/(1,10) ˆ 2 = 46.280,99
- Ano 3: 65.000,00/(1,10) ^3 = 48.835,46
- Ano 4: 72.000,00/(1,10) ^4 = 49.176,97
O valor da empresa de acordo com FCD é de R$ 189.747,96
Deste valor, é deduzida a dívida líquida, chegando ao “valor de mercado”.
Finalmente, ao dividir o valor de mercado pelo quantidade de ações distribuídas pela empresa chega-se ao valor justo da ação.
O cálculo mostrado acima é um exemplo bastante simples apenas para ilustração.
Análise das Demonstrações Financeiras
Toda empresa deve por lei publicar periodicamente informações operacionais conforme determina a lei (leis 6.404/76, 11.638/07 e 11.941/09).
Através destes documentos você poderá entender a atual situação das empresas e até fazer projeções.
É comum que após as divulgações das demonstrações financeiras, o mercado mude sua perspectiva da empresa, para melhor ou pior.
Um bom exemplo disso são as ações da Apple que caíram mesmo com um demonstrativo financeiro apontando aumento nos rendimentos. Isso se deve a quebra de expectativa em relação às vendas de seus eletrônicos.
Para a análise fundamentalista, os principais dados da demonstração financeira que nos interessa são:
- Balanço Patrimonial
- Demonstrativo de Resultado do Exercício
- Demonstrativo de fluxo de caixa
- Demonstrativo de lucro acumulado